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O tamanho das coisas

- Já foram maiores, os travesseiros. 
Uma frase que ouvia muitas vezes lá na pastelaria – famosa, por sinal - onde trabalhava. E por mim tudo bem. Vivo tranquilo com a ideia de que a infância e a terceira idade se assemelham não só na incontinência como também numa certa tendência para deturpar a dimensão das coisas. Quantas vezes me vi a regressar a sítios onde tinha estado quando era puto e dei por mim a perceber que não são tão grandes como os imaginava. Da mesma forma que os mais velhos tendem a pensar que no seu tempo os preços eram mais baixos, os políticos eram mais honestos e os travesseiros eram maiores. 
Dada esta lei da vida, não me chocava nada ser confrontado várias vezes com a referida acusação – “já foram maiores, os travesseiros” – aos sábados e aos domingos, entre as 11 e as 20 horas enquanto tentava ganhar uns trocos para poupar uma parte e estoirar a restante em imperiais pós-laborais. Como era um nobre trabalhador/estudante de comunicação, sempre que me via perant…

Três Poemas para um Jovem Enfermo

I - Enxaqueca
o quarto está frio e a luz entra pelas frinchas da persiana magoando-me os olhos recém despertos
penetra a carne como um fino ferro passa pelos músculos tropeça nuns quantos órgãos vitais e aloja-se nos ossos
levanto-me com dor mas só porque a fome o obriga e amaldiçoo-te sem freio
o que tínhamos era bom e eu não tenho idade para sofrer de reumático

II - Febre
aperto os pulsos à espera de algo mais de tudo menos o cilício dos lençóis de tudo menos o breu brutal da realidade de tudo menos o nada
para que me dão palavras que se partem nas minhas mãos são brinquedos que não sei usar que desaparecem algures na neblina mental tudo menos o lugar em vez de mim
quisera eu que fosse um sonho mas nem sei o que isso é verguei-me ao sorvedouro entrei dobrado e só dobrado dele sairei tudo menos o amanhã
porque é assim não sei eu nem ninguém a piada é universal o choro convulsivo o choro salino de milhões de derrotados tudo menos o meu também
III – Náuseas
havia pétalas e lágrimas  e tu…

Não mata mas pica

Já todos aqui levámos uma. Eu já, tu também, os teus vizinhos e primos não ficam de fora e até a dona Irene do 2.º já levou, pelo menos uma vez na vida.  Não estou a falar de vacinas.
Coima. 
Até é uma palavra difícil de pronunciar. E mais difícil ainda de engolir. Mas tenho uma teoria: sâo elas o ritual de passagem para a idade adulta. 
Se ainda não deixaste a tua inocência por aí em alguma estação de metro, comboio, num estacionamento mal feito ou mal pago ou numa rotunda à noite onde o balão marca mais de 0,5, então este texto não é para ti, seu assíduo leitor da Bravo e colecionador de posters dos D’ZRT. Ainda não passaste pela experiência de ser esvaziado da tua essência de teenager enquanto te aparecem magicamente duas rugas de expressão, uma senha das finanças e uma declaração do IRS nas mãos. 
(E olhem, isto não é um texto sobre uma multa) 
Uma mulher vai criando uma imagem agradável de si própria - sente-se respeitável, uma lady na mesa, ocasionalmente charmosa, atrevo-me. De…

Reflexões sobre naturezas-mortas a partir de impressões de movimento

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A PLACE IN THE SUN (1951). Cansado e imerso em tormentas infindas, ele pousa a cabeça no regaço da sua quimera, que o olha ternamente. A pietà antecipada, porque ela ainda não percebeu que a perdição lhe está próxima. Mas os seus olhos são claros e trágicos, e quando ele os lança no rosto dela, cheios de esperança, a mágoa ressoa fulminante no peito e encaminha-o, por fim, para o abismo. O seu destino, a sua consciência, numa palavra, a sua salvação, decide-se ali. O desastre físico será o resultado mecânico, inevitável, de uma engrenagem posta em acção por aquele duplo olhar: a ousadia de uma esperança impossível mas que o encandeia no seu fulgor; o apelo de piedade a um amor mais alto, ideal e puro, que o traiu.

A PLACE IN THE SUN (1951). Poor Alice. Não é fácil a vida de uma rapariga que cresceu em L.A. nos anos quarenta. Nesses dias, o sonho do prince charming era servido em todos os cinemas, ao longo de múltiplas sessões diárias. Para Alice, que se servia abundantemente desse cr…