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O Imenso Até-Já

Escrevi este texto para a edição de 2018 do concurso "Novos Talentos Fnac". A ideia era pegar num clássico da literatura e criar uma nova história a partir dessa referência. As razões para este trabalhinho, escrito à pressa e revisto de forma igualmente veloz, não ter sido seleccionado no certame são várias, sendo que todas elas derivam do meu fraco talento para contar histórias. O facto de não ter pegado num "clássico instituído" da literatura, mas sim em Raymond Chandler e nos seus livros O Imenso Adeus e À Beira do Abismo, também não terá sido a melhor das opções. Mas achei que este seria um bom mote para uma nova fornada de textos mal educados, porque representa, para mim, tudo o que este projecto é: aleatório, por vezes anárquico e, ainda, um potencial fabricante de ideias patetas - como esta historieta foi. Aqui fica este "O Imenso Até-Já", agora revisto com mais cautela, tendo algumas partes mais vergonhosas sido reescritas ou exterminadas. E por f…

Até Já!

A Má Educação vai de férias. Voltamos em altura oportuna, com novos textos e muitas excentricidades.

Obrigado por nos acompanharem! :)


O tamanho das coisas

- Já foram maiores, os travesseiros. 
Uma frase que ouvia muitas vezes lá na pastelaria – famosa, por sinal - onde trabalhava. E por mim tudo bem. Vivo tranquilo com a ideia de que a infância e a terceira idade se assemelham não só na incontinência como também numa certa tendência para deturpar a dimensão das coisas. Quantas vezes me vi a regressar a sítios onde tinha estado quando era puto e dei por mim a perceber que não são tão grandes como os imaginava. Da mesma forma que os mais velhos tendem a pensar que no seu tempo os preços eram mais baixos, os políticos eram mais honestos e os travesseiros eram maiores. 
Dada esta lei da vida, não me chocava nada ser confrontado várias vezes com a referida acusação – “já foram maiores, os travesseiros” – aos sábados e aos domingos, entre as 11 e as 20 horas enquanto tentava ganhar uns trocos para poupar uma parte e estoirar a restante em imperiais pós-laborais. Como era um nobre trabalhador/estudante de comunicação, sempre que me via perant…

Três Poemas para um Jovem Enfermo

I - Enxaqueca
o quarto está frio e a luz entra pelas frinchas da persiana magoando-me os olhos recém despertos
penetra a carne como um fino ferro passa pelos músculos tropeça nuns quantos órgãos vitais e aloja-se nos ossos
levanto-me com dor mas só porque a fome o obriga e amaldiçoo-te sem freio
o que tínhamos era bom e eu não tenho idade para sofrer de reumático

II - Febre
aperto os pulsos à espera de algo mais de tudo menos o cilício dos lençóis de tudo menos o breu brutal da realidade de tudo menos o nada
para que me dão palavras que se partem nas minhas mãos são brinquedos que não sei usar que desaparecem algures na neblina mental tudo menos o lugar em vez de mim
quisera eu que fosse um sonho mas nem sei o que isso é verguei-me ao sorvedouro entrei dobrado e só dobrado dele sairei tudo menos o amanhã
porque é assim não sei eu nem ninguém a piada é universal o choro convulsivo o choro salino de milhões de derrotados tudo menos o meu também
III – Náuseas
havia pétalas e lágrimas  e tu…

Não mata mas pica

Já todos aqui levámos uma. Eu já, tu também, os teus vizinhos e primos não ficam de fora e até a dona Irene do 2.º já levou, pelo menos uma vez na vida.  Não estou a falar de vacinas.
Coima. 
Até é uma palavra difícil de pronunciar. E mais difícil ainda de engolir. Mas tenho uma teoria: sâo elas o ritual de passagem para a idade adulta. 
Se ainda não deixaste a tua inocência por aí em alguma estação de metro, comboio, num estacionamento mal feito ou mal pago ou numa rotunda à noite onde o balão marca mais de 0,5, então este texto não é para ti, seu assíduo leitor da Bravo e colecionador de posters dos D’ZRT. Ainda não passaste pela experiência de ser esvaziado da tua essência de teenager enquanto te aparecem magicamente duas rugas de expressão, uma senha das finanças e uma declaração do IRS nas mãos. 
(E olhem, isto não é um texto sobre uma multa) 
Uma mulher vai criando uma imagem agradável de si própria - sente-se respeitável, uma lady na mesa, ocasionalmente charmosa, atrevo-me. De…