Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta Cinema

Reflexões sobre naturezas-mortas a partir de impressões de movimento

Imagem
A PLACE IN THE SUN (1951). Cansado e imerso em tormentas infindas, ele pousa a cabeça no regaço da sua quimera, que o olha ternamente. A pietà antecipada, porque ela ainda não percebeu que a perdição lhe está próxima. Mas os seus olhos são claros e trágicos, e quando ele os lança no rosto dela, cheios de esperança, a mágoa ressoa fulminante no peito e encaminha-o, por fim, para o abismo. O seu destino, a sua consciência, numa palavra, a sua salvação , decide-se ali. O desastre físico será o resultado mecânico, inevitável, de uma engrenagem posta em acção por aquele duplo olhar: a ousadia de uma esperança impossível mas que o encandeia no seu fulgor; o apelo de piedade a um amor mais alto, ideal e puro, que o traiu. A PLACE IN THE SUN (1951).  Poor Alice . Não é fácil a vida de uma rapariga que cresceu em L.A. nos anos quarenta. Nesses dias, o sonho do prince charming era servido em todos os cinemas, ao longo de múltiplas sessões diárias. Para Alice, que se servia ...

À la carte de condução

Imagem
Ocasionalmente aparece em artigos culinários e reviews de restaurantes a apelativa ideia de que uma boa refeição é uma viagem pela gastronomia, pelos sabores, pelos sentidos... e como na maioria das viagens, existe um momento de pesquisa e de preparação prévia, e são feitas escolhas a gosto, desde o caminho mais cénico ao cálculo do trajeto mais rápido.  Esta viagem promete ser ligeiramente atribulada. Vai ser uma total misturada de termos culinários, noções de condução e, ainda, uma pitada de cinema, para no fundo apenas descrever acidentes de percurso. As analogias excessivas vão dar a volta ao estômago e fazer enjoar – mas o texto é breve. Apertem então o cinto de segurança.  Entradas 18 aniversários salteados e pastéis de idade tenra.  Os 16 anos são sweet e os 18 também têm as suas propriedades adoçantes, mesmo que possam conter vestígios de frutos menos saborosos. É a altura dos rótulos e dos vícios, mas também do entusiasmo e dos sonhos, dos b...

Graham Greene: um romancista inquieto e intemporal

Imagem
O século XX viu nascer muitos romancistas e homens da palavra que ficaram na história pela sua escrita irrepreensível e pela imaginação que colocavam em cada obra. Poucos terão, ainda assim, tido uma vida tão rica em histórias dignas de romance como o autor britânico Graham Greene (1904-1991).  Se por um lado Greene se tornou conhecido e largamente adorado pelos romances que o próprio definia como “entretenimentos”, são também as suas obras mais profundas e filosóficas, quase existencialistas, entre a relação com o catolicismo e a compreensão das relações humanas - e da posição do homem na sociedade, na vida, na sua época -, que o tornam ainda hoje um dos autores do século passado mais relevantes e intemporais.  A obra de Greene, quase integralmente autobiográfica, é uma viagem pelas suas experiências e reflexões, pelos países que conheceu, pelas profissões que assumiu e por todas as viagens que teve oportunidade de fazer e que lhe ofereceram perspectivas diferent...