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Hierarquia das Limpezas

Bem-haja, caro leitor. O cronista encontra-se neste momento em viagem na sua vigésima translação ao sol. Por isto confira-se-lhe alguma aptidão para a rebeldia, na história chocante que se segue. Estava o cronista sentado na aba de um sofá, e colocou os seus pés, ou os seus sapatos por interposto de seus pés numa cadeira. Aí, alguém apela a que retire seus pés da cadeira porque “eu sento-me aí.” É está a história. Como vê, o cronista quebrou o contrato social do sagrado código locais onde se pode pôr os pés . Por outro lado, não tendo faltado a nenhuma palestra do curso tira os pés daí antes que apanhes uma lamparina , administrados quase cirurgicamente por seus pais, cedeu ao pedido e retirou relutantemente os pés da cadeira. Relutantemente, por duas razões. A primeira das quais, é que “Relutantemente” parece uma palavra esperta no que concerne advérbios de modo, mas que o cronista aprendeu a jogar Football Manager . De seguida, porque lhe surgiu uma questão: quando é que os rabo...

Sai um texto mal passado

Posso escrever sobre bolachas de manteiga numa lata azul-escura-brilhante, sobre um fio de ouro ensanguentado no chão do colégio, sobre um dealer chorão e aqueles 4 centímetros que cresci fora de tempo e quero descobrir onde.  Peçam-me para divagar em 5000 carateres sobre amigas de longa data ou sobre quando tranquei a turma na sala da catequese porque pensava que a hóstia era chocolate branco. Até me pinto para esgotar as palavras.  Mas nunca sobre sentimentos.  Não pensem que não tentei. Mas é que soa sempre a cru. Àqueles bifes em sangue por dentro ( ​sai um texto mal passado para a dois ), a forte e destemido, a corajoso, a um sentimento como ele se vê se fora, a uma mão que pega na pistola com firmeza mas por dentro treme mais do que as ilhas da Indonésia. As maravilhas do backstage das palavras são infinitas e esta é uma delas: ser fechado ao público e parecer aberto. (Ai, que escritor emocional. Ai, que poeta apaixonado, Vocês sabem lá, faz-vos gastar...

História do Incompromissismo do Filipe (e do Chinês que lhe Roubou a Casa)

O Filipe é um tipo porreiro desde que em tipo se tornou. Filipe para os amigos, Filipe Rodriga para a Segurança Social, Rodriguinha para ninguém (mas fica a sugestão), o incompromissismo é uma das sua características que mais atormentam as cabecinhas questionadoras dos que o rodeiam. É que certo dia, como em inúmeros outros que poderiam aqui ser mencionados em vez deste, organizavam os companheiros do Filipe aquilo que se poderá apelidar de ajuntamento juvenil para bem do convívio e do consumo de cevada fermentada. Ora, criam estes moçoilos a típica conversa com dez intervenientes simultâneos numa daquelas aparelhetas na rede (leia-se, o Messenger) e questiona o anfitrião da peça sobre a disponibilidade dos restantes participantes. “'Tou lá batido”, “Podes contar comigo”, “Levo vinho, gajas e croissants ”, até que o Filipe cai na clássica de perfurar da cascata. É que é sempre a mesma treta, e a malta sabe, sim senhor, que se há traço característico que caracterize o Fi...

O Sol Omisso

Teria inspirado todo o ar do mundo se a ele tivesse acesso. Provavelmente o meu corpo não aguentaria a pressão, e a fragilidade, ou inexistência da minha massa muscular cederia à minha própria ambição de querer ser um melhor eu (e assim, aos olhos desatentos de todo o mundo, simplesmente e inexplicavelmente explodiria). De facto, foi esse o factor que me conduziu à situação que agora vivia, e não podendo fazer mais nada neste momento a não ser lidar com tal, saboreei o oxigénio que me circulava pelo sangue, e decidido, expirei suavemente no ritmo com que abria os olhos. FODA-SE! O mundo está de pernas para o ar! Não passaram mais de cinco segundos desde que pestanejei, e posso jurar-vos a pés juntos – haviam-me instruído que era este o costume correcto - que antes de semicerrar os olhos, o mundo estava exactamente igual a todos os outros dias e noites. Mas agora, o chão era o tecto, o tecto era o chão, e a imensa avenida que posso avistar lá fora estava no céu, enquanto que as nuv...

Memórias do Cárcere (Ou: o que ainda não recalquei enquanto antigo aluno do IST)

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Quando o editor deste blog me colocou um convite para elaborar um texto para este espaço, fê-lo mais ou menos da seguinte maneira: "Se alguma coisa te tiver chateado, escreve sobre ela que eu publico." Portanto, só faria sentido que tal levasse ao registo das recordações mais traumáticas que um antigo estudante do Instituto Superior Técnico adquiriu durante a vida universitária. Desconheço se a experiência por que passei é semelhante à que se encontra noutras faculdades (de engenharia ou não), mas se assim for, tanto melhor para quem se revir neste texto. Para contextualizar, estive no Técnico durante 5 anos, onde tirei engenharia biológica. “Biológica? Tem alguma coisa a ver com animais?”, questionará o caro leitor. Nada disso. Para quem não sabe, engenharia biológica consiste no estudo e aplicação de seres e ferramentas biológicas de pequena dimensão (de enzimas a leveduras) nas áreas da indústria e investigação. Daí o “biológica”. Agora, o estimado leitor pergunta...

O tamanho das coisas

- Já foram maiores, os travesseiros.  Uma frase que ouvia muitas vezes lá na pastelaria – famosa, por sinal - onde trabalhava. E por mim tudo bem. Vivo tranquilo com a ideia de que a infância e a terceira idade se assemelham não só na incontinência como também numa certa tendência para deturpar a dimensão das coisas. Quantas vezes me vi a regressar a sítios onde tinha estado quando era puto e dei por mim a perceber que não são tão grandes como os imaginava. Da mesma forma que os mais velhos tendem a pensar que no seu tempo os preços eram mais baixos, os políticos eram mais honestos e os travesseiros eram maiores.  Dada esta lei da vida, não me chocava nada ser confrontado várias vezes com a referida acusação – “já foram maiores, os travesseiros” – aos sábados e aos domingos, entre as 11 e as 20 horas enquanto tentava ganhar uns trocos para poupar uma parte e estoirar a restante em imperiais pós-laborais. Como era um nobre trabalhador/estudante de comunicação, sempre q...

Não mata mas pica

Já todos aqui levámos uma. Eu já, tu também, os teus vizinhos e primos não ficam de fora e até a dona Irene do 2.º já levou, pelo menos uma vez na vida.  Não estou a falar de vacinas. Coima.  Até é uma palavra difícil de pronunciar. E mais difícil ainda de engolir. Mas tenho uma teoria: sâo elas o ritual de passagem para a idade adulta.  Se ainda não deixaste a tua inocência por aí em alguma estação de metro, comboio, num estacionamento mal feito ou mal pago ou numa rotunda à noite onde o balão marca mais de 0,5, então este texto não é para ti, seu assíduo leitor da Bravo e colecionador de posters dos D’ZRT. Ainda não passaste pela experiência de ser esvaziado da tua essência de teenager enquanto te aparecem magicamente duas rugas de expressão, uma senha das finanças e uma declaração do IRS nas mãos.  (E olhem, isto não é um texto sobre uma multa)  Uma mulher vai criando uma imagem agradável de si própria - sente-se respeitável, uma lady ...

O Peixinho Dourado de Deus

Um dia, aliás, no dia, Deus criou o céu, a terra e todas as coisas que nela habitam. Ao Homem, que havia criado à sua imagem e que por isso gozava de um favoritismo que os outros invejavam, deu o livre arbítrio para que este pudesse gerir o seu Fado como bem entendesse. Era Sua intenção que com esta faculdade pudesse Ele não se preocupar mais com o destino da Terra, e assim desfrutar de umas eternas férias. Assim o fez, e no segundo seguinte a pegar nas suas malas em direcção a um interrail pelo Espaço, o Homem já lhe estava a encher o voice mail de pedidos e preces. Por infortúnio, e uns copos a mais bebidos na estância balnear de Alpha 7, o Criador embateu num buraco negro, e vendo o tempo e o espaço dobrarem-se perante Ele, foi teletransportado para as imediações do Sistema Solar. No inesperado houve sorte, e aproveitando o facto de estar tão perto de casa, Deus decidiu lá fazer uma rápida paragem, para se limpar das poeiras cósmicas com um belo duche quente, e tomar um Guron...

Modernidade mais tardia que a minha virgindade

Que é? Não é vergonha nenhuma. É o que nunca ninguém disse, literalmente. Ninguém diz essa merda. Se não fosse realmente uma vergonha fazer-se-ia precisamente o oposto, e andaria toda a gente por aí a gabar-se da durabilidade da virgindade como se fosse alguma espécie de troféu, semelhante ao comprimento do pénis. 20 anos-luz em ambos, baby . É isto que fazemos. Agora e sempre, gabamo-nos das coisas. Simplesmente agora arranjámos novas plataformas para esse velho vício. E se não temos coisas grandes de que nos gabar, falamos sobre o tamanho das mãos num debate para dar certezas a toda a gente, ou então compramos coisas ainda maiores. No meu caso, isso é discutível, já que não tenho mesmo algo maior que comprar, e se tivesse nem o poderia fazer, uma vez que nunca encontrei a Galáxia Andrómeda disponível para comprar na Remax ou no OLX. Seria realmente a única coisa. Quando nos queremos gabar das posses, o usual a comprar é um smartphone com um ecrã cada vez maior, com o intuit...

À la carte de condução

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Ocasionalmente aparece em artigos culinários e reviews de restaurantes a apelativa ideia de que uma boa refeição é uma viagem pela gastronomia, pelos sabores, pelos sentidos... e como na maioria das viagens, existe um momento de pesquisa e de preparação prévia, e são feitas escolhas a gosto, desde o caminho mais cénico ao cálculo do trajeto mais rápido.  Esta viagem promete ser ligeiramente atribulada. Vai ser uma total misturada de termos culinários, noções de condução e, ainda, uma pitada de cinema, para no fundo apenas descrever acidentes de percurso. As analogias excessivas vão dar a volta ao estômago e fazer enjoar – mas o texto é breve. Apertem então o cinto de segurança.  Entradas 18 aniversários salteados e pastéis de idade tenra.  Os 16 anos são sweet e os 18 também têm as suas propriedades adoçantes, mesmo que possam conter vestígios de frutos menos saborosos. É a altura dos rótulos e dos vícios, mas também do entusiasmo e dos sonhos, dos b...

As Crónicas de um Leproso

Fernando Albino Mosca Caída nasceu num McDonald’s do Porto de uma forma dolorosa e, no entanto, extremamente engraçada. A mãe, que era uma coleccionadora abusiva de brinquedos de Happy Meal, estava a discutir com uma criança porque a tinha visto com um brinquedo que ainda não possuía. A malvada criança, farta da adulta resmungona, empurrou-a com força e a grande barriga, quando colidiu com o chão, acabou por causar o nascimento do pequeno Fernando mais cedo do que o esperado. Por sua vez, o seu pai era um famoso vendedor de cachorros em Matosinhos e tinha muito sucesso. Apesar de os seus pais não serem muito dotados (ou seja: eram muito burros), Fernando teve sempre grande potencial para aprender, e o seu gosto e talento por ler e escrever não se demoraram a notar. Esse seu talento nunca foi valorizado pelo seu pai, que nunca se surpreendeu pelos seus dotes. Pode-se dizer que não continha uma costela criativa, aliás, uma salsicha criativa. Continuando: “O investimento está na comida, ...

Mas o que vem a ser isto?

Numa tarde de Outono em que a ociosidade dominava todo o ambiente doméstico, Pancrácio Antímio sentia-se aborrecido. Este intrépido aventureiro encontrava-se sem nada de novo para fazer, sem nenhum trabalho que pudesse eliminar o tédio que sentia naquele momento: não tinha mais tesouros para caçar no mundo perdido da Atlântida de Baixo, a prima afastada da outra Atlântida, mais conhecida internacionalmente, e que se situava nos confins de um pantanal lá para os lados de uma barragem improvisada pela câmara municipal de Santa Efigénia dos Tremoços; nem tinha qualquer pista nova que justificasse retomar a sua antiquíssima investigação para encontrar o paradeiro do príncipe D.Canestiano IV, herdeiro ao trono da Grunitiviera, desaparecido numa manhã de nevoeiro sem deixar rasto enquanto estava a torrar duas fatias de pão alentejano para, posteriormente, barrar com marmelada e adicionar um pouco de queijo gouda; e por fim, tinha acabado a busca pelos três cromos raros que lhe faltavam pa...