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Fontarcada

- Capitão! Os comunistas tomaram de assalto o torreão das Virtudes!  Com o embate provocado pelo sobressalto, na mesa ficou um lago de vinho e de papel amarelo de jornal, no chão um copo partido. Aquele anúncio interrompera com estrépito o seu ritual vespertino. Sentava-se sempre na mesa mais recatada da esplanada da Cantareira e pedia meio copo de tinto com gelo e uma garrafa pequena de gasosa. Depois abria sobre a mesa as asas de papel do Comércio de um qualquer dia sorteado de cento e cinquenta e um anos de arquivo do periódico. Divertia-se naquela tarde com as notícias, carcomidas pelo bicho, do dia 29 de Agosto de 1870, enquanto rosava os lábios com o suave xarope do refresco e se reconfortava com a platitude da baía à sua frente. Essa preciosa paz foi rasgada por um bote que acelerava vindo da outra banda, e que entrara no ancoradouro com o presságio de um desastre.  - Que mais sabes, Mestre Jonas?  - É tudo. Mal vi a bandeira negra hasteada na capela d...

O regresso dos deploráveis

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Num misto de repulsa e curiosidade mórbida, assisti à cobertura mediática das manifestações fascistas que tiveram lugar no ano passado em Charlottesville, no estado norte-americano de Virginia. Não demorei muito a perceber que os factos ocorridos eram enquadrados pela esmagadora maioria dos repórteres (e também, naturalmente, pelos comentadores das redes sociais) segundo essa lógica que costuma “resolver” o problema da extrema-direita — a lógica do estranhamento . Isto é, dei-me conta de que os artigos de imprensa e alguma da indignação facebookiana construíam uma imagem quase exótica daquela gente branca, medíocre e zangada. Como se estivéssemos perante um grupo de extraterrestres que periodicamente se lembra de vir aterrar no nosso planeta para causar estragos. Como se, em última instância, todos eles não fossem outra coisa senão o próprio Mal personificado, algo tão radicalmente abjeto e contrário aos nossos valores que não merece sequer uma palavra para além do espanto, do insulto...