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Tocou-lhe o telemóvel

Tocou-lhe o telemóvel. Não mais que duas, não menos que quatro vezes. E, quase sem atender, perguntaram-lhe onde estava. Perguntaram-lhe se tinha almoçado, e o que tinha almoçado, e porquê. Perguntaram-lhe se tinha frio, se estava vestido de forma preparada para a chuva. Perguntaram-lhe com quem estava, e se eles tinham almoçado e estavam preparados para a chuva. Perguntaram-lhe quando voltava, se ía outra vez, o que fazia amanhã e se estava pronto para o amanhã, se mais, se menos do que tinha ontem estado pronto para hoje, e como estava a correr, hoje? Perguntaram-lhe se tinha apagado o esquentador, verificado se todas as torneiras estavam fechadas, tomado a vitamina e tirado tempo para reflectir acerca dos benefícios de cada um dos 26 componentes da mesma. Perguntaram-lhe qual o padrão da camisa, qual o tipo de tecido dos calções que envergava, qual a cor do céu quando para ele não se olha. Perguntaram-lhe o que andava a ler, os filmes que planeava visionar, quais as flores que cres...

A_rumar

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O ar circulava frio na rua, apesar de ser verão e haver sol. Tinha acabado de chegar e ainda estava com algum sono da viagem de comboio. Olhava agora em redor. Do outro lado da rua, na praça central, avistava um painel colorido com um letreiro a branco, mas estava demasiado longe para conseguir ler. Existe uma canção chamada Elogio da Pobreza , com uma letra fabulosa da multifacetada Regina Guimarães. Faz parte do álbum (muito) Animal do projeto musical Osso Vaidoso, uma colaboração da voz de Ana Deus com os bons sons de Alexandre Soares. Essa música ecoava de vez em quando na cabeça de Francis, particularmente em dias mais desgastantes, de grandes cargas (de água e não só), de chuvas dissolventes e pés nas poças, que tanto refletiam o seu desconforto. Dias de reflexão. Lembrava-se da primeira vez que a tinha ouvido. No seu primeiro ano de faculdade, tinha ganho esse CD animalesco ao participar num passatempo da revista  Mundo Universitário . O CD estava agora no sót...

O Sol Omisso

Teria inspirado todo o ar do mundo se a ele tivesse acesso. Provavelmente o meu corpo não aguentaria a pressão, e a fragilidade, ou inexistência da minha massa muscular cederia à minha própria ambição de querer ser um melhor eu (e assim, aos olhos desatentos de todo o mundo, simplesmente e inexplicavelmente explodiria). De facto, foi esse o factor que me conduziu à situação que agora vivia, e não podendo fazer mais nada neste momento a não ser lidar com tal, saboreei o oxigénio que me circulava pelo sangue, e decidido, expirei suavemente no ritmo com que abria os olhos. FODA-SE! O mundo está de pernas para o ar! Não passaram mais de cinco segundos desde que pestanejei, e posso jurar-vos a pés juntos – haviam-me instruído que era este o costume correcto - que antes de semicerrar os olhos, o mundo estava exactamente igual a todos os outros dias e noites. Mas agora, o chão era o tecto, o tecto era o chão, e a imensa avenida que posso avistar lá fora estava no céu, enquanto que as nuv...