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Modernidade mais tardia que a minha virgindade

Que é? Não é vergonha nenhuma. É o que nunca ninguém disse, literalmente. Ninguém diz essa merda. Se não fosse realmente uma vergonha fazer-se-ia precisamente o oposto, e andaria toda a gente por aí a gabar-se da durabilidade da virgindade como se fosse alguma espécie de troféu, semelhante ao comprimento do pénis. 20 anos-luz em ambos, baby . É isto que fazemos. Agora e sempre, gabamo-nos das coisas. Simplesmente agora arranjámos novas plataformas para esse velho vício. E se não temos coisas grandes de que nos gabar, falamos sobre o tamanho das mãos num debate para dar certezas a toda a gente, ou então compramos coisas ainda maiores. No meu caso, isso é discutível, já que não tenho mesmo algo maior que comprar, e se tivesse nem o poderia fazer, uma vez que nunca encontrei a Galáxia Andrómeda disponível para comprar na Remax ou no OLX. Seria realmente a única coisa. Quando nos queremos gabar das posses, o usual a comprar é um smartphone com um ecrã cada vez maior, com o intuit...

O regresso dos deploráveis

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Num misto de repulsa e curiosidade mórbida, assisti à cobertura mediática das manifestações fascistas que tiveram lugar no ano passado em Charlottesville, no estado norte-americano de Virginia. Não demorei muito a perceber que os factos ocorridos eram enquadrados pela esmagadora maioria dos repórteres (e também, naturalmente, pelos comentadores das redes sociais) segundo essa lógica que costuma “resolver” o problema da extrema-direita — a lógica do estranhamento . Isto é, dei-me conta de que os artigos de imprensa e alguma da indignação facebookiana construíam uma imagem quase exótica daquela gente branca, medíocre e zangada. Como se estivéssemos perante um grupo de extraterrestres que periodicamente se lembra de vir aterrar no nosso planeta para causar estragos. Como se, em última instância, todos eles não fossem outra coisa senão o próprio Mal personificado, algo tão radicalmente abjeto e contrário aos nossos valores que não merece sequer uma palavra para além do espanto, do insulto...