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Repetição

Lembro-me de pouca coisa Um autocarro comum Uma fila de crianças (não fosse este um programa infantil) E o meu avô, a dar-me a mão Não são muitos os sonhos que se concretizam Mas aqui estava um, à minha frente Já imaginaram um velhote no meio da criançada? Aposto que se notava, se fosse do outro lado Lembro-me de pouca coisa Um autocarro comum Uma fila de pessoas (não fosse agora hora de ponta) E o meu avô, sentado ao meu lado Não são muitos os sonhos que se concretizam Mas aqui estava um Ao meu lado. Tiago Laranjo

Três Poemas para um Jovem Enfermo

I - Enxaqueca   o quarto está frio e a luz entra pelas frinchas da persiana magoando-me os olhos recém despertos penetra a carne como um fino ferro passa pelos músculos tropeça nuns quantos órgãos vitais e aloja-se nos ossos levanto-me com dor mas só porque a fome o obriga e amaldiçoo-te sem freio o que tínhamos era bom e eu não tenho idade para sofrer de reumático II - Febre aperto os pulsos à espera de algo mais de tudo menos o cilício dos lençóis de tudo menos o breu brutal da realidade de tudo menos o nada para que me dão palavras que se partem nas minhas mãos são brinquedos que não sei usar que desaparecem algures na neblina mental tudo menos o lugar em vez de mim quisera eu que fosse um sonho mas nem sei o que isso é verguei-me ao sorvedouro entrei dobrado e só dobrado dele sairei tudo menos o amanhã porque é assim não sei eu nem ninguém a piada é universal o choro convulsivo o choro sal...