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Tocou-lhe o telemóvel

Tocou-lhe o telemóvel. Não mais que duas, não menos que quatro vezes. E, quase sem atender, perguntaram-lhe onde estava. Perguntaram-lhe se tinha almoçado, e o que tinha almoçado, e porquê. Perguntaram-lhe se tinha frio, se estava vestido de forma preparada para a chuva. Perguntaram-lhe com quem estava, e se eles tinham almoçado e estavam preparados para a chuva. Perguntaram-lhe quando voltava, se ía outra vez, o que fazia amanhã e se estava pronto para o amanhã, se mais, se menos do que tinha ontem estado pronto para hoje, e como estava a correr, hoje? Perguntaram-lhe se tinha apagado o esquentador, verificado se todas as torneiras estavam fechadas, tomado a vitamina e tirado tempo para reflectir acerca dos benefícios de cada um dos 26 componentes da mesma. Perguntaram-lhe qual o padrão da camisa, qual o tipo de tecido dos calções que envergava, qual a cor do céu quando para ele não se olha. Perguntaram-lhe o que andava a ler, os filmes que planeava visionar, quais as flores que cres...

História do Incompromissismo do Filipe (e do Chinês que lhe Roubou a Casa)

O Filipe é um tipo porreiro desde que em tipo se tornou. Filipe para os amigos, Filipe Rodriga para a Segurança Social, Rodriguinha para ninguém (mas fica a sugestão), o incompromissismo é uma das sua características que mais atormentam as cabecinhas questionadoras dos que o rodeiam. É que certo dia, como em inúmeros outros que poderiam aqui ser mencionados em vez deste, organizavam os companheiros do Filipe aquilo que se poderá apelidar de ajuntamento juvenil para bem do convívio e do consumo de cevada fermentada. Ora, criam estes moçoilos a típica conversa com dez intervenientes simultâneos numa daquelas aparelhetas na rede (leia-se, o Messenger) e questiona o anfitrião da peça sobre a disponibilidade dos restantes participantes. “'Tou lá batido”, “Podes contar comigo”, “Levo vinho, gajas e croissants ”, até que o Filipe cai na clássica de perfurar da cascata. É que é sempre a mesma treta, e a malta sabe, sim senhor, que se há traço característico que caracterize o Fi...

Há Mais Folhas Para Além do Excel

“Quando morrer... Haverá tecnologia para lá dos meus sonhos. Haverá arte e liberdade. Quando morrer, depois de morrer Por ti, o destino será subjugado à verdade. Quando morrer Lembrar-se-ão do barulho que fiz. Mas tu, que és o som da minha vida, não sei do que te recordarás. Quando eu morrer, e da minha carne nascer uma árvore num jardim qualquer, lembra-te que nessa árvore estão os pássaros, cujas plumas um dia me caíram do chapéu. Quando os fores venerar, essas esfinges ao meu orgulho, só aí, chora. Não chores por mim. Chora porque a árvore que quero ser, mas não serei, nunca te abraçará. Chora porque de tudo o que dei às letras, à música, à arte, à vida!, tudo definhou no orgulho ferido de umas plumas tesas no chão, no sepulcro de uma árvore qualquer. Quão doce seria o teatro, o nosso teatro, se o palanque fosse feito dessa árvore, e tu o percorresses com os teus pés. Quando eu morrer, não quero aquelas tangas que fazem aos art...

Fontarcada

- Capitão! Os comunistas tomaram de assalto o torreão das Virtudes!  Com o embate provocado pelo sobressalto, na mesa ficou um lago de vinho e de papel amarelo de jornal, no chão um copo partido. Aquele anúncio interrompera com estrépito o seu ritual vespertino. Sentava-se sempre na mesa mais recatada da esplanada da Cantareira e pedia meio copo de tinto com gelo e uma garrafa pequena de gasosa. Depois abria sobre a mesa as asas de papel do Comércio de um qualquer dia sorteado de cento e cinquenta e um anos de arquivo do periódico. Divertia-se naquela tarde com as notícias, carcomidas pelo bicho, do dia 29 de Agosto de 1870, enquanto rosava os lábios com o suave xarope do refresco e se reconfortava com a platitude da baía à sua frente. Essa preciosa paz foi rasgada por um bote que acelerava vindo da outra banda, e que entrara no ancoradouro com o presságio de um desastre.  - Que mais sabes, Mestre Jonas?  - É tudo. Mal vi a bandeira negra hasteada na capela d...

O Peixinho Dourado de Deus

Um dia, aliás, no dia, Deus criou o céu, a terra e todas as coisas que nela habitam. Ao Homem, que havia criado à sua imagem e que por isso gozava de um favoritismo que os outros invejavam, deu o livre arbítrio para que este pudesse gerir o seu Fado como bem entendesse. Era Sua intenção que com esta faculdade pudesse Ele não se preocupar mais com o destino da Terra, e assim desfrutar de umas eternas férias. Assim o fez, e no segundo seguinte a pegar nas suas malas em direcção a um interrail pelo Espaço, o Homem já lhe estava a encher o voice mail de pedidos e preces. Por infortúnio, e uns copos a mais bebidos na estância balnear de Alpha 7, o Criador embateu num buraco negro, e vendo o tempo e o espaço dobrarem-se perante Ele, foi teletransportado para as imediações do Sistema Solar. No inesperado houve sorte, e aproveitando o facto de estar tão perto de casa, Deus decidiu lá fazer uma rápida paragem, para se limpar das poeiras cósmicas com um belo duche quente, e tomar um Guron...

Mas o que vem a ser isto?

Numa tarde de Outono em que a ociosidade dominava todo o ambiente doméstico, Pancrácio Antímio sentia-se aborrecido. Este intrépido aventureiro encontrava-se sem nada de novo para fazer, sem nenhum trabalho que pudesse eliminar o tédio que sentia naquele momento: não tinha mais tesouros para caçar no mundo perdido da Atlântida de Baixo, a prima afastada da outra Atlântida, mais conhecida internacionalmente, e que se situava nos confins de um pantanal lá para os lados de uma barragem improvisada pela câmara municipal de Santa Efigénia dos Tremoços; nem tinha qualquer pista nova que justificasse retomar a sua antiquíssima investigação para encontrar o paradeiro do príncipe D.Canestiano IV, herdeiro ao trono da Grunitiviera, desaparecido numa manhã de nevoeiro sem deixar rasto enquanto estava a torrar duas fatias de pão alentejano para, posteriormente, barrar com marmelada e adicionar um pouco de queijo gouda; e por fim, tinha acabado a busca pelos três cromos raros que lhe faltavam pa...